Cada dia que passa tento manter viva a paciência de compreender outros humanos, aceitar seus defeitos do jeito que são, e não dar a mínima por esses não se importarem com o que qualquer um sinta. Tento entender porque tanto traem, mentem, destroem, porém quanto mais me aproximo, maior é o estrago. Eu nunca pedi demais. Um café e uma conversa depois de um encontro casual, por exemplo. Depois um abraço, um até logo e a sensação de que o “até logo” seja um “Adeus”, junto á sensação de que vou tarde. É claro, não são todos, mas esses eu conheço muito bem. Sumiram da minha vida do mesmo jeito que entraram: do nada. Saudades de um tempo em que eu me importava, hoje, sou eu quem me levanto sem esperar o café ou qualquer outro pedido que me faça ficar. Não por querer ir embora, mas por estar cansada de esperar. Eu que tanto esperei e corri por alguém, e aqui estou: sozinha de tanto sonhar. Nunca a palavra desapego faria tanto sentido como agora, e acredite! Dói mais em mim lamentar e te dizer “desculpa, mas não restou nenhuma demonstração de afeto aqui dentro”. É um bloqueio que, por mais frio e cruel que seja, me mantém longe de muita coisa.

É por isso que pra mim tanto faz se me querer no dia seguinte ou não. Mas não me iluda se quiser ficar. Não me prometa nada, nem diga que vai me procurar. Uma hora eu acabo acreditando, e você sabe, tenho lá meus defeitos mundanos, mas lhe ofereço: meu calor, meu café, meu endereço. E deles, você escolhe qual vai aceitar, deixar esfriar…ou visitar.

Sarah Conca

17th August, SundayReblog
Os três mal amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

17th August, SundayReblog

(Source: marijuananirvana)

Pirâmide

Tua frieza não me atinge mais.

Cinco horas, um cigarro e a espera pela aurora. Já se fazia muito tempo que ódio medo e angustia eram as únicas coisas que eu podia sentir, e o que fica agora é a dúvida e a busca eterna pelo que eu realmente sou. O que eu fui ou de onde eu vim não importa, já passou. A única certeza é que sou um coração vadio procurando amor em si mesmo, vendo mentiras na televisão e a classe alta que, como você, tentam me apontar onde é o meu lugar, e que nele eu devo permanecer.Ora, se nem eu sei quem sou, quem é você pra me dizer que não sou nada? Eu posso ser melhor do que tu pensas, ou bem pior do que achas que eu seria capaz. Eu olho para o fundo do poço e não me vejo mais nele, porém também não estou por cima. Sou o meio, o elo perdido na sala de espera da vida de novo, lendo revistas sobre a vida de outras pessoas que me fazem acreditar ser mais importantes do que eu. Pessoas que se sentem por cima e te pedem migalhas que, segundo eles, é pra ajudar os que estão por baixo. Enxergo uma certa semelhança entre eles e você. Ambos acham que estarão sempre seguros no topo da sua pirâmide de orgulho indestrutivel, e que hipocrisia! Dizem querer me ajudar a chegar em cima. Ora, se pra isso terei que ser como vocês, muito obrigada moço!

Eu ainda prefiro o fundo do poço.

Sarah Conca.

15th August, FridayReblog
Por muito tempo eu não pude idealizar o dia em que você, definitivamente, não viria mais a cruzar o meu caminho. O que eram garrafas vazias e cinzeiros cheios são apagados, e se quer falar de solidão, bem, aqui estou. Solidão essa que hoje não me serve mais, já que encontrei em mim, perfeita companhia para tampar o vazio que eu cometi o erro de tentar preenchê-lo contigo. Todos os dias ao passar pelo corredor e não te encontrar, fecho a porta. Suspiro. Agradeço por mais um dia sem nossos olhares se cruzarem. E tenho a certeza de que não mais se cruzarão. Nem olhares, nem caminhos. Cartas na mesa. Elas apontam a mesma direção.
O laço virou nó, e o nó que era discórdia, desatou: nós somos livres

— Sarah Conca

12th August, TuesdayReblog
Filhos da Terra

Me despertou curiosidade. 

Sou uma eterna curiosa atraída por sons e cores. Sons aqueles que ecoavam na sala, cores aquelas que ofuscavam naquela noite dando aos seus olhos verdes um tom especial… Verdes? Bem, me pergunto até hoje que cor realmente são. Se azuis são, me deixa morar nesse azul de imensidão. Revejo minha sintonia com a dos trausentes na sala, e a minha frequencia encontrou a sua. Eu, que já o observava muitas vezes, agora tenho a chance de apreciá-lo melhor. O azul e verde que despertaram minha atenção em meio á tantas cores sons e pessoas num mesmo lugar, e o meu olhar encontrou o seu. Grande foi minha surpresa quando o nobre capricornio me convidou pra ficar pro café. Várias coisas passavam pela minha cabeça: será que pediu por educação? Ou porque queria que eu ficasse? É que me foi apresentado um significado diferente para o termo “casual”, que pra mim é claro, não envolvia ficar pro café. Me pergunto também se me chamaria de louca por escrever sobre você. Nós que pouco nos conhecemos, mas o suficiente para conseguir deduzir que és sim, um capricorniano. Persistente, um filho da Terra, assim como eu, taurina de extensa paciência e de fortes explosões. E mesmo conhecendo- o pouco, eu sentia que era como eu de alguma forma. Somos filhos da mesma fonte. Não se assuste pessoa, eu apenas escrevo sobre aqueles que me fazem bem. Mesmo que o tempo ao lado desses seja de uma vida…ou de apenas uma noite. Noite essa que eu adoraria transformar em alguns dias, quem sabe, deixo fluir. 

Ainda faz um tempo bom pra desperdiçar comigo.

Podemos enfeitar domingos…

Sarah C.

11th August, MondayReblog
Eles não sabem

Eu sempre recebo mensagens e elogios

Ou não sei se pode-se chamar de elogios

Mas todos que lêem meus textos sabem que lá tem todo meu sentimento mais puro, e que nele é fácil afirmar

"como você é intensa e romântica!" E eles não sabem o quanto estão certos, e também não sabem o quão ruim isso é.

O quão ruim é ser intenso, sonhador e romântico num mundo que não está nem ai pro que você sente. Eles não sentem, não conhecem o que é sentir por mais de 10.

Simplesmente porque eles não sabem o que é olhar pro céu todos os dias e nele encontrar toda inspiração que precisa

Não sabem o que é esperar o trem passar e relacionar o barulho dele com as batidas do seu coração, que parecem acelerar á cada minuto

Eles não sabem o que é amar e se desfazer em mil pedaços

Eles não sabem o que é conter dentro de si todos os sentimentos do mundo

Não sabem o que é mergulhar de cabeça no oceano profundo

Eles não sabem como é sentir ao extremo e derramar lágrimas diante de tudo aquilo que é arte e traz inspiração

Eles não sabem como dói 

E nem como é

sentir com o coração. 

Sarah C. 

Dedicado á todos os românticos incompreendidos.

7th August, ThursdayReblog
Amor livre

Lamento por não ligar. É que não há muito o que se dizer quando o fim é certo, e pra mim é real. Meus dias de caos e noites de choro desconsolado chegam ao fim, e cada dia é uma dádiva, quando já passam das dez e você não apareceu á minha porta. É nesse horário que respiro fundo, fecho os olhos e agradeço aos céus e mil entidades por essa noite ser mais uma daquelas em que não vou vê-lo se humilhar por tão pouco. Eu tinha um mundo muito mais bonito pra te mostrar como é bom viver sem eu cruzar o teu caminho. Depois de dias tão ruins, eu sei que me levanto e por você não vou mais cair. Eu sinto que agora, eu encontrei o amor livre. Lembro-me quando tu achavas que amor livre era o amor sem compromisso. Se enganou, pois amor livre nada mais é que amar á si mesmo, pra depois aprender á amar qualquer outra criatura no mundo. É que existem diversas formas do amor se manifestar, e eu espero com toda fé que um dia você conheça todas elas.

Te perdendo eu cresci tanto que eu não sei se eu quero mais te encontrar.

The End.

Sarah C.

7th August, ThursdayReblog
fireflies

fireflies