Caminhante noturno

Eu enxergo a noite com olhos felinos que fitam a Lua minguante num céu sem estrelas. Sou da noite e da boemia, assim quisera eu. Acreditei que nela encontrava perfeita companhia pra preencher o vazio que é ficar no mesmo lugar por mais de um mês. Enquanto não posso ir muito longe, sigo sendo caminhante noturna e sendo o que eu queria ser quando crescer, me enxergo em todo lugar no momento, menos aqui. E continuo minha jornada sem fim em busca de algo que complete meu vazio impreenchível, da companhia ideal que não existe e do lugar pra chamar de “lar” que também está na minha cabeça. É comum escutar dos outros que estou perdida e bem, talvez seja verdade. Mas eu acredito que quando se sabe qual caminho não quer seguir, já é meio caminho andado pra saber aonde vai.

Atendo uma ligação e o choro  materno desconsolado do outro lado da linha me faz refletir o porque de estar aqui. Mais uma besteira que a gente faz por amor: um amor que, assim como lar, o vazio e a companhia, só existiram na minha imaginação fértil.  Criei um palácio de cristal onde hoje, somos só eu e as ruinas.  Ora, não me arrependo de amar. É algo que nunca se deve fazer. Me arrependo apenas de não ter cuidado ao mergulhar no oceano profundo, sem saber o que ia encontrar

A morte? A pérola? Ou só mais uma cicatriz pra juntar

Voltando com vida ou não, sempre o fundo do oceano tem algo a nos contar.

Deixo então, aos marinheiros que contem essa história: derrotas, lutas e glorias

Sarah Conca

12th September, FridayReblog
Aqui jaz minha inspiração

Calor. Tédio. Enxaqueca. Página em branco.  

Tudo que eu mais odeio se une para um bloqueio de inspiração. Logo eu, que passei tanto tempo na escuridão, gostava de todos os dias contemplar com clareza a luz da Lua e dançar. Hoje ela está linda, grande, brilhante, como os trausentes me disseram. Todos sabem como eu amo a Lua, e hoje recebi notícias de todos os lugares que me pediam pra sair de casa e vê-la. Pois bem, justo hoje eu não saí. Eu não dancei com ela, que veio me chamar pelo vitrô da lavanderia, sutil como quem dizia “Espero por você”. Dei as costas: hoje nem tu pode me inspirar.

Nada me deixa mais triste do que a falta de inspiração, a falta de vontade em ser e fazer arte. Sem ela, nada faz sentido. É que minha inspiração falhou comigo diversas vezes, e agora, sem ela e sem ninguém com quem eu possa compartilhar de tamanha dor, estou completamente perdida, e no vácuo, onde a inspiração me deixou. E nada dói mais nesse mundo do que a indiferença que ela sente por mim, e o amor intenso, livre e belo  que tenho por ela.

Não preciso da tua indiferença, muito menos da sua piedade. Uma pena, eu só queria te mostrar o amor de uma forma que nunca conheceste antes: Livre, leve, solto. 

Sarah Conca

9th September, TuesdayReblog
Encontrei em ti, inspiração
Pra preencher o vazio dos meus domingos
Encontrei nas palavras, a saída do tédio
Pra valer a pena meu dia
Não posso lhe dar devida inspiração
Mas ainda lhe ofereço:
Meu calor, meu endereço.
Li tuas palavras dando muitas voltas
Gostosas de se ler, lindas de se admirar
E se tu quiser, eu volto
Envolta de vontade de voltar.

— Sarah Conca

7th September, SundayReblog
Navio de cristal

Um dia, em alguma vida talvez, eu aprenda a controlar o meu estado de embriaguez. Enquanto não, eu me divirto num domingo á tarde, vendo um país iludido com seu título de independência enquanto outros não querem saber, só lamentar o feriado de domingo e se dizerem entendidos de política, enquanto eu acho tudo engraçado e ao mesmo tempo, um saco.

O xamã está chegando. Ele veio abrir as portas da percepção para quem quiser segui-lo.E quanto mais eu o sigo, quanto mais extensa é minha percepção, menos a vida faz sentido, e volta ser aquele filme repetitivo da sessão da tarde que a gente continua pra ver no que vai dar. Seguimos na esperança de que as personagens mudem, mas nunca vão mudar. É como rir de si mesmo e das tuas próprias paranóias e insistências, e se imaginar ao lado dos bons que partiram desse plano jovens, e que hoje se encontram do lado direito dos deuses.

Tento retornar á noite anterior. O que vejo é um zoomorfismo na visão de Aluísio de Azevedo: pessoas como animais no cio, ora, é o que realmente são.  Posso sentir o cheiro de suas almas imundas se misturando no ar. Acho tudo engraçado de novo. No estado em que me encontrava, tudo era engraçado. Não vou aos lugares para observar a dança do acasalamento humano mas não há como não despertar minha atenção quando o assunto envolve o velho entra e sai. Me encosto em qualquer canto e olho pra Lua. Tão majestosa e clara que não era preciso nenhuma iluminação além dela. Deixei-a refletir em meu espelho, captando sua energia: agora eu estava pronta.

O navio de cristal repousa sobre a chuva branda, ancora no porto da ilusão e me convida á uma nova aventura de medo e horror. “Vamos domar a serpente”, ele sempre diz. Dou um passo pra trás e o rei lagarto me olha torto,e me convence: “Você precisa disso. Confie em mim, eu posso fazer tudo”. Escuto a canção do fim e ela parece me levar pra perto dele. Me exponho ao meu medo mais profundo e depois de momentos de desespero, o medo desaparece e eu estou livre. Eu domei a serpente. Eu sou dona de mim mesma.

Sarah Conca

7th September, SundayReblog
Nada pessoal, meu bem
Mas hoje eu quero voltar sozinha.
Quero sentir a liberdade de estar num espaço só meu
Meu número. Outro dia, talvez. Mas não hoje.
Hoje eu comemoro o dia em que as feridas se fecharam
O dia em que descobri minha existência
E que ela valia muito mais
Por favor, não me acompanhe
Nesse corredor, apenas os meus passos
Sei onde estou
Que por mim tenhas ódio, mas nunca pena
Ou de mim, uma visão de fragilidade
Pra ver além do horizonte
É questão de afinidade.

— Sarah Conca

5th September, FridayReblog
Eu que já não sei como viver
Vou improvisando sem saber
Gritava aos 4 ventos a minha poesia
De miserável suja e mórbida rebeldia
Ao mesmo tempo inocente
Que não sabe dizer o que sente
Que procurava luz aonde nunca existiu
Um dia olhou pra dentro de si e viu
Que ali sempre teve uma luz escondida
Hoje invade os lares
De toda alma
Perdida

Sarah Conca

4th September, ThursdayReblog
Antes da ressaca

Hoje, eu vaguei por aí.

Minh’alma misturava-se em meio aos boêmios, os fracassados, os pinos redondos nos buracos quadrados, os julgados loucos por viverem, loucos por enxergarem as coisas como realmente são. É isso que são. Mais uma dessas almas perdidas que ainda não sabem como viver, por isso improvisam. Me sinto e sou como elas, em tudo aquilo que demonstra loucura eu digo “quero experimentar”, por mais amargo que seja, por mais estranho que me olhem passar. Eu caminho com a cabeça nas nuvens e os pés no chão, e os deuses aclamam meu estado de plena embriaguez que se rende ás tentações mundanas e espera pela aurora, pois é so com ela que vem o sono. Salve salve, boemia.

As luzes atravessam a janela: está na hora, e o navio de cristal já vai partir. Eu sempre o vejo, e quase ninguém mais vê, é ao amanhecer que o vejo partir, gozando de tal insanidade, me deixando com dores de tanto rir sem lembrar do quê, e disseminando o caos por onde passa.

Subo o mais alto que posso para esperar o Sol, o vento é a forte e as brumas quase cobrem por inteiro a cidade: dia estranho pra pessoas que considero estranhas. Ora, quão relativo esse termo é! Pessoas pra mim estranhas, são as mesmas que me olham pela janela de suas casas de corações vazios e me julgam estranha ao mesmo tempo. Enquanto elas caçoam do meu estado, eu extendo os braços e fecho os olhos. O vento me abraça e me sinto flutuar, e enquanto observo os tais estranhos chorando por um novo dia, eu só quero voar pra apreciá-lo ainda mais, sobre todos os seus angulos e alturas possíveis.

Nesse momento sinto

que posso ser quem sou

Ou quem eu quiser, também serei

Sei que posso fazer tudo

Porque me sinto o lagarto rei.

Sarah Conca

1st September, MondayReblog
Alma errante

Hoje, me peguei lembrando do teu sorriso. Assim, do nada, me veio na cabeça. A primeira coisa que pensei em seguida foi ” não comece! Não é nada” e de fato, não era nada alarmante. Nada que envolvesse amor, não desta maneira. Mas é que deu saudades. E pra ajudar, eu que não paro em lugar nenhum não faço idéia de quando irei revê-lo, ou se irei de fato. Desde então, meu passatempo preferido é imaginar como seria te ver de novo. Bobeira, né? Costumo passar o tempo só, e com isso desenvolvi uma imaginação bem fértil, e quando se trata de você ela vai além. Já tinha lhe dito que tu me traz inspiração, pois bem, ela voltou!

E se eu pudesse mudar minh’alma de lugar? Com certeza, essa noite iria parar no teu quarto, e te admirar em silêncio, como eu um dia gostei de fazer. Vai esperar anciosamente por um sorriso teu, e então ficamos: minha alma e eu, admirando teu sorriso e me pergunto: como é que a alma entra nessa história, ja que o que sinto é tão carnal? Eu desisto de tentar entender. Só sei o quanto te quero com todo seu calor junto do meu. Sempre te imagino me dizendo meias verdades, enquanto lhe faço suas vontades - todas aquelas que ainda não realizei. Queria eu poder trazê-lo até mim há tempo de ouvir a última frase da canção que toca agora em meus ouvidos. Diga que você me quer, porque eu te quero também.

Sarah Conca

28th August, ThursdayReblog

"Não é preciso nem uma semana pra eu sentir vontade louca de mudar de ares. E a estrada se torna rotina de novo, e por mais que eu suspire e diga que não a quero mais, uma hora ela começa á fazer falta. E sem perceber, pouco a pouco viro nômade. Bem, não sei o nome certo pro que acontece comigo. Só sei que a mudança passou a ser uma peça essencial na minha vida. Uma peça que, sem ela não me sinto feliz, muito menos livre. Livre sei que nunca serei, pois em cada lugar que pouso, tenho deveres á cumprir. Como gaivota eu vôo, mas sempre volto. Volto porque distribuo em cada lugar que pouso, partes de mim que me dêem motivos pra voltar, e não importa o quão longe eu voe: onde existir amor, eu voltarei." (Sarah Conca)

27th August, WednesdayReblog
Platônico

Desculpe.

Esse meu jeito meio inesperado de me apaixonar todo dia por alguém diferente. Alguns duram meses, outros semanas e alguns, nem um dia. Respiro, dou e sou amor, e isso ninguém pode me tirar. Gosto de estar rodeada por tudo que amo, e amo tudo aquilo que me faz bem. Pouso feito borboleta e danço entre os dedos dos meu protegidos, e de mão em mão eu abraço, eu beijo, eu dou e recebo um tanto. Mas não espere que eu fique no mesmo lugar, pois estou sempre em movimento e em eterna mudança e quem me conhece sabe que é real. É que eu tenho um mundo lá fora pra amar, e o amor em sua essência deve ser assim: livre.

Acontece que por uma dessas andanças por ai eu encontrei também um viajante. Desses que vem de muito longe, sabe de onde veio mas não pra onde vai. E tem mais: ele não se parece com ninguém. Ele não é como o taurino que eu conheci pelos bares, não é o músico de blues que canta baby, ligh my fire. Ele é sim canceriano, mas mesmo todo canceriano tem seu diferencial. Ele não é como nenhum desses rapazes que conheço da noite pro dia e que prometem me ligar no dia seguinte e não ligam. Ele não é. Ele não é, mas podia ser tudo pra mim, mas como cobrar isso de um viajante como eu? Sei que tem uma série de coisas que ele não é, ora, o conheço tão pouco…e a única coisa que fosso afirmar é que ele é o cara mais bonito que já conheci em toda minha vida, e eu perderia com ele um bom tempo, se fosse preciso. O ruim de se apaixonar por um desses, é que nunca se sabe quando o verei de novo, se o verei. 

Apenas suspiro. “Boa viagem” é tudo que lhe posso desejar.

Que a música lhe guie, pois eu não posso guiar.

Sarah Conca

26th August, TuesdayReblog