Vamos falar de solidão

Tem dias em que ela desaparece pra mim, ou assim me faz acreditar. Ainda desconfio de que ela nunca foi embora. Acho que se esconde nas gavetas do meu tempo, só esperando um descuido meu que me faça abrir. Todo dia experimento uma forma diferente de conviver com ela em harmonia. Mas ás vezes, quanto mais nos escondemos, mais desejamos ser encontrados. Quanto mais sós queremoz estar é quando mais precisamos de companhia. E não qualquer companhia, ora, a solidão reaparece pra mim muitas vezes na forma de copo vazio, posto á uma mesa cheia de gente também vazia pelos botecos da cidade. Não importa quantos estão lá: no final da noite somos eu e ela.
Restauro minhas forças e suspiro mais uma vez. Recordo as palavras de alguém que acredita saber mais de mim do que eu. “Não posso crer que se sinta só. Tens um canto em cada canto, e em cada um deles alguém que te espera anciosamente. Como alguém assim pode ser tão só?” A resposta veio, e doeu. Existem tantas coisas que eu vivi meu bem, que tu nunca viveu. É que nessa história de estar sempre indo e vindo, a gente acaba só, sem perceber, muitas vezes sem querer. Porém ainda acredito que a solidão não seja essa tragédia que alguns consideram ser. Quando encontras em ti perfeita companhia, a solidão assim como a estrada, acaba sendo uma boa e velha amiga.

Sarah C.

15th October, WednesdayReblog
Realeza

Coincidência ou não
Achei teu endereço escrito em papel de pão
Coincidência, assim digo
Pois era sobre ti que queria contar
E pedir que olhe pro teu umbigo
Antes que eu possa fazer esse rímel borrar
Devo lhe admitir, senhorita
És dona de sorriso e feição muito bonita
Quem dera Deus
Tê-la feita tão bela além dos olhos meus
É que Deus nada tem a ver com isso
É o rumo que decidiste tomar
Alguns ainda caem nesse feitiço
Que tive o desgosto de provar
O nariz empinado de quem nos julga a escória
Diz saber tanto sobre a minha história…
E assim ja havia lhe escrito:
Mas que tristeza!
Rica em beleza, ó realeza
E tão miserável em espirito.
Meu sentimento é de pena
Tens tanto á aprender, pequena!
Mas nunca aprenderá
Além de teus pobres pais
Quem ao teu lado está?
Não vejo ninguém mais
É fim de festa
E o que lhe resta?
É lamentar os próprios pecados
E apontar os outros como errados
Tão fácil e tão previsível
Vindo da garota invisível
Á todos de bom coração
Que mesmo os bons lhe digam “não”
Pois esse filme sabemos de cor.
Mas, se mesmo que eu continue pregando a paz
E desejando o bem pra quem o faz
Ainda me julgues a escória
Prefiro assim ser,
Rainha Vitória.

Sarah C.

11th October, SaturdayReblog
Espelho

O que realmente sou odeia o que me tornei. Espelho em estilhaços, coraçao em pedaços. Me olho e já não sei mais diferenciar o meu eu dos meus muitos eu’s. Talvez esteja relacionado á minha falta de caráter, junto ao medo de demonstrar quem realmente sou pra pessoas que podem vir a usar isso contra mim. E ele está certo: eu não sei quem eu sou hoje.

“‘Hoje viajo num só mês milhões de milhas sem ter pra onde voltar, o asfalto é minha casa mas não da pra chamar de lar. É tao vazio, tao frio, tao fora do lugar…’”

Silencio. Vinte e quatro horas sem álcool descendo a garganta.O choro que engoli desce muito mais amargo do que qualquer gim e aquelas palavras abriram a ferida que eu acreditei conseguir tampar com meu ego. Dor. Desabo mais uma vez e cavo o fundo do poço pois o fundo não é o suficiente. Até então, pra mim, não saber quem é era uma qualidade. É que eu convivo diariamente com a saudade, a cada cidade que passo é um estilhaço de coração que eu deixo, e assim me dissipo pelo mundo. Então eu acreditava ser melhor que cada um conhecesse um eu. Um eu que não existe. Nenhum deles nunca existiu.

Tempo. Senhor tao bonito, entro num acordo contigo: penso antes de agir pra não mais deixar que o tempo seja perdido, como foi tantas vezes. Perdido não digo, pois foram dias de felicidades plena que acabaram de um jeito trágico, digno de um filme de comedia romântica cafona. O arrependimento hoje é de ter deixado de dizer tudo o que queria, e a má noticia sobre o tempo é que ele voa. E a boa noticia, que somos nós que o pilotamos.

Volto á procurar uma razão pra estar aqui, mas como se tao desprovida sou de razão? O que acontece meu bem, é que ainda não sei como viver, então improviso. Faço cenas, dramas, erros absurdos e lamentos desesperados.

E tudo ao tempo eu entrego

Confio

Aceito

Agradeço.

Sarah C.

2nd October, ThursdayReblog
29/09

Eu que já me contentava em dormir cedo, num piscar de olhos estava debruçada em um balcão, observando os trausentes pelo fundo do copo e lamentando por esse estar quase vazio. Tédio. Rotina. Não importa aonde eu vá, estou sempre no mesmo lugar: observando tudo ao redor e como legitima estranha que sou podia imaginar suas vidas por meio de gestos e olhares. Por isso posso dizer que conheço muitas delas , mesmo que essas não façam idéia da minha existência. Porque humanos são frágeis, decifráveis e que exalavam falsidade, medo, alegria e embriaguez entre tantas sensações que eu podia pressentir em seus olhares. Alguns desses, maliciosos. Porém, tudo previsivel. Mas ei, um minuto ai! Conheço aquele olhar. Estranho não consegui-lo decifrar. Ao mesmo tempo que ja os vira antes, não fazia a menor idéia do que diziam. Pela primeira vez me falhou a intuição, e também me despertou atenção como tudo que é indecifrável, desconhecido, proibido e esse ao meu ver, era de todos o mais atraente. Assim como havia feito antes, observei por alguns instantes antes de me aproximar. Queria aqueles olhos em cima dos meus. Queria que aquele sorriso me devorasse e que seu toque me levasse ao extase, co ja senti antes.
Parece que ele sabe. Parece que adora me ver assim e se diverte: quase de joelhos implorando pra que ele me leve pra casa, como cão sem dono, pra depois me revirar do avesso, me despir, devorar.
“você não me conhece” é o que sempre digo. Mas no fundo eu sei que sou eu quem não o conheço. O que sei é pouco, quase nada desse oceano azul.
Mas eu prefiro ficar aqui na superfície.
E se belo for o azul
profundo?
Vou mergulhar e me afogar
Pra sempre
Nesse teu mundo.

Sarah C.

29th September, MondayReblog
Caminhante noturno

Eu enxergo a noite com olhos felinos que fitam a Lua minguante num céu sem estrelas. Sou da noite e da boemia, assim quisera eu. Acreditei que nela encontrava perfeita companhia pra preencher o vazio que é ficar no mesmo lugar por mais de um mês. Enquanto não posso ir muito longe, sigo sendo caminhante noturna e sendo o que eu queria ser quando crescer, me enxergo em todo lugar no momento, menos aqui. E continuo minha jornada sem fim em busca de algo que complete meu vazio impreenchível, da companhia ideal que não existe e do lugar pra chamar de “lar” que também está na minha cabeça. É comum escutar dos outros que estou perdida e bem, talvez seja verdade. Mas eu acredito que quando se sabe qual caminho não quer seguir, já é meio caminho andado pra saber aonde vai.

Atendo uma ligação e o choro  materno desconsolado do outro lado da linha me faz refletir o porque de estar aqui. Mais uma besteira que a gente faz por amor: um amor que, assim como lar, o vazio e a companhia, só existiram na minha imaginação fértil.  Criei um palácio de cristal onde hoje, somos só eu e as ruinas.  Ora, não me arrependo de amar. É algo que nunca se deve fazer. Me arrependo apenas de não ter cuidado ao mergulhar no oceano profundo, sem saber o que ia encontrar

A morte? A pérola? Ou só mais uma cicatriz pra juntar

Voltando com vida ou não, sempre o fundo do oceano tem algo a nos contar.

Deixo então, aos marinheiros que contem essa história: derrotas, lutas e glorias

Sarah Conca

12th September, FridayReblog
Aqui jaz minha inspiração

Calor. Tédio. Enxaqueca. Página em branco.  

Tudo que eu mais odeio se une para um bloqueio de inspiração. Logo eu, que passei tanto tempo na escuridão, gostava de todos os dias contemplar com clareza a luz da Lua e dançar. Hoje ela está linda, grande, brilhante, como os trausentes me disseram. Todos sabem como eu amo a Lua, e hoje recebi notícias de todos os lugares que me pediam pra sair de casa e vê-la. Pois bem, justo hoje eu não saí. Eu não dancei com ela, que veio me chamar pelo vitrô da lavanderia, sutil como quem dizia “Espero por você”. Dei as costas: hoje nem tu pode me inspirar.

Nada me deixa mais triste do que a falta de inspiração, a falta de vontade em ser e fazer arte. Sem ela, nada faz sentido. É que minha inspiração falhou comigo diversas vezes, e agora, sem ela e sem ninguém com quem eu possa compartilhar de tamanha dor, estou completamente perdida, e no vácuo, onde a inspiração me deixou. E nada dói mais nesse mundo do que a indiferença que ela sente por mim, e o amor intenso, livre e belo  que tenho por ela.

Não preciso da tua indiferença, muito menos da sua piedade. Uma pena, eu só queria te mostrar o amor de uma forma que nunca conheceste antes: Livre, leve, solto. 

Sarah Conca

9th September, TuesdayReblog
Encontrei em ti, inspiração
Pra preencher o vazio dos meus domingos
Encontrei nas palavras, a saída do tédio
Pra valer a pena meu dia
Não posso lhe dar devida inspiração
Mas ainda lhe ofereço:
Meu calor, meu endereço.
Li tuas palavras dando muitas voltas
Gostosas de se ler, lindas de se admirar
E se tu quiser, eu volto
Envolta de vontade de voltar.

— Sarah Conca

7th September, SundayReblog
Navio de cristal

Um dia, em alguma vida talvez, eu aprenda a controlar o meu estado de embriaguez. Enquanto não, eu me divirto num domingo á tarde, vendo um país iludido com seu título de independência enquanto outros não querem saber, só lamentar o feriado de domingo e se dizerem entendidos de política, enquanto eu acho tudo engraçado e ao mesmo tempo, um saco.

O xamã está chegando. Ele veio abrir as portas da percepção para quem quiser segui-lo.E quanto mais eu o sigo, quanto mais extensa é minha percepção, menos a vida faz sentido, e volta ser aquele filme repetitivo da sessão da tarde que a gente continua pra ver no que vai dar. Seguimos na esperança de que as personagens mudem, mas nunca vão mudar. É como rir de si mesmo e das tuas próprias paranóias e insistências, e se imaginar ao lado dos bons que partiram desse plano jovens, e que hoje se encontram do lado direito dos deuses.

Tento retornar á noite anterior. O que vejo é um zoomorfismo na visão de Aluísio de Azevedo: pessoas como animais no cio, ora, é o que realmente são.  Posso sentir o cheiro de suas almas imundas se misturando no ar. Acho tudo engraçado de novo. No estado em que me encontrava, tudo era engraçado. Não vou aos lugares para observar a dança do acasalamento humano mas não há como não despertar minha atenção quando o assunto envolve o velho entra e sai. Me encosto em qualquer canto e olho pra Lua. Tão majestosa e clara que não era preciso nenhuma iluminação além dela. Deixei-a refletir em meu espelho, captando sua energia: agora eu estava pronta.

O navio de cristal repousa sobre a chuva branda, ancora no porto da ilusão e me convida á uma nova aventura de medo e horror. “Vamos domar a serpente”, ele sempre diz. Dou um passo pra trás e o rei lagarto me olha torto,e me convence: “Você precisa disso. Confie em mim, eu posso fazer tudo”. Escuto a canção do fim e ela parece me levar pra perto dele. Me exponho ao meu medo mais profundo e depois de momentos de desespero, o medo desaparece e eu estou livre. Eu domei a serpente. Eu sou dona de mim mesma.

Sarah Conca

7th September, SundayReblog
Nada pessoal, meu bem
Mas hoje eu quero voltar sozinha.
Quero sentir a liberdade de estar num espaço só meu
Meu número. Outro dia, talvez. Mas não hoje.
Hoje eu comemoro o dia em que as feridas se fecharam
O dia em que descobri minha existência
E que ela valia muito mais
Por favor, não me acompanhe
Nesse corredor, apenas os meus passos
Sei onde estou
Que por mim tenhas ódio, mas nunca pena
Ou de mim, uma visão de fragilidade
Pra ver além do horizonte
É questão de afinidade.

— Sarah Conca

5th September, FridayReblog
Eu que já não sei como viver
Vou improvisando sem saber
Gritava aos 4 ventos a minha poesia
De miserável suja e mórbida rebeldia
Ao mesmo tempo inocente
Que não sabe dizer o que sente
Que procurava luz aonde nunca existiu
Um dia olhou pra dentro de si e viu
Que ali sempre teve uma luz escondida
Hoje invade os lares
De toda alma
Perdida

Sarah Conca

4th September, ThursdayReblog